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Renata Cruz

Sempre me fascinaram os livros ilustrados com desenhos e fotografias acompanhados de textos explicativos. Me surpreendiam e interessavam as relações estabelecidas entre imagem e texto. E também as informações presentes na escolha das letras, na transfiguração do mundo em desenhos, no tipo de papel utilizado e o formato, além do conteúdo do livro.

Durante os anos de faculdade que vivi em Madrid, tomei contato com uma quantidade imensa de obras em pequenos papéis, com desenhos e textos, dobras, algumas cores, feitas por diversos artistas modernistas como Picasso, Miró, Juan Brossa -para citar os espanhóis- mas além deles também muitos outros presentes, por exemplo, no movimento surrealista que desenvolveram trabalhos frágeis e potentes contendo textos e pequenas imagens. Estas obras me impressionaram muito e abriram possibilidades de trabalho para mim. A partir daí, retomei meu interesse pela literatura em diálogo com desenhos. Interessa-me apresentar a imagem envolta em sua própria carga literária, excluindo dela a velocidade oficial com que nos organizamos e o excesso de informação incutidos nas coisas pela vida prática.

Busco, através do desenho e dos textos, reinserir seres, objetos e lugares ao que acredito serem seu verdadeiro estado, ao mesmo tempo que tento oferecer a quem vê os trabalhos, espaços para colocarem sua própria experiência nessas colagens.

1.Renata Cruz

Artista visual - desenho - colagem de textos e imagens

2. O que olhas quando olhas para a tua obra?

A união de tempos e espaços diversos na tentativa de criar um outro tempo e lugar.

3. Que elementos não podem faltar numa exposição tua?

Até agora não faltaram papel e textos literários, daqui pra frente não sei o que será.

4. O teu processo artístico em poucas palavras.

Estou sempre tentando apresentar imagens de elementos em geral do nosso quotidiano, com a carga poética e literária que enxergo neles.

5. Artistas vivos ou obras que são uma referência para ti.

J. M. Coetzee e Kazuo Ishiguro por transformarem situações do quotidiano muito simples em espaços de grande potência. Evandro Carlos Jardim por realizar em pequenas imagens o mesmo que os escritores anteriormente citados realizam em algumas sentenças. Kara Walker e Kiki Smith por também fazerem o mesmo porém ocupando grandes áreas do espaço arquitectónico.

6. Tendências que tens percebido ou acompanhado nas artes contemporâneas nos últimos 15 anos.

O que percebo na arte contemporânea em geral, ou melhor, o que me agrada notar, é cada vez mais a ausência do passaporte do artista. A obra e a relevância do trabalho, independente da sua nacionalidade. Assim, um artista não precisa ser apresentado como artista português, ele é somente um artista.

7. O que é que tu colocarias no teu cabinet de curiosités?

Muitos desenhos e objetos feitos sobre ou em papel. E como tesouros expoentes do acervo, as obras de Paul Klee e Kurt Schwitters.

8. A experiencia como artista residente no CDAP.

O palácio me despertou para uma maior interlocução do trabalho com o espaço. Este espaço é carregado de assuntos e foi bastante desafiador pensar a relação entre ele e os desenhos. Foi uma experiência que trouxe comigo e está inserida nos trabalhos que realizo atualmente.