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Paula Scamparini

Auto denomino-me artista pesquisadora, por me interessar muito mais pela pesquisa e processo do fazer artístico que pelo produto do que possa ser nomeado arte, hoje. Ser professora universitária no Instituto de Artes, antes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e agora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), além de oferecer cursos pela Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro me coloca em relação a situações e questões renovadas e instigantes incessantemente. Essa relação aparece em meu trabalho, sobretudo no que se possa dizer de contextual em meus interesses e fazer artístico. Tenho me deslocado com frequência desde 2011 para residências artísticas que me colocam em contato e modificam-me a partir de cada uma das paisagens em que me insiro, sobretudo as humanas. Tenho assim feito exposições coletivas e individuais nos últimos anos e realizei cinco individuais nos últimos três anos no Rio de Janeiro, em Brasília, em Viena, Munique, e agora em Lisboa. Estudei artes na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em São Paulo e me doutorei pela UFRJ em 2014, defendendo um fazer artístico que pudesse se travestir em tese. Trato o fazer artístico enquanto vezes mola propulsora, vezes campo de deposito de inquietações e experiencias, sobretudo coletivas, que me interessam cada vez mais. 

 

1. Paula Scamparini

Artista pesquisadora.

2. O que olhas quando olhas para a tua obra?

Algo relacionado não a mim, mas ao outro. Discursos e imagens cuja rede de significados elaborados/experienciados ao construí-los, (e afinal ao serem apresentadas a publico) tornam-se já outros. Dependem sobretudo daquele que se relaciona com a peça proposta.

3. Que elementos não podem faltar numa exposição tua?

Boa pergunta. Não há um elemento-base que perpasse as peças para além de discursos que alinhavo. Tal vez a experiencia cultural-contextual a que me proponho e que problematizo seja o elemento mais forte e constante em meus trabalhos dos últimos anos.

4. O teu processo artístico em poucas palavras.

Parto sempre da relação do lugar no qual a exposição deverá se dar e ao lugar em que me coloco para produzir o trabalho. Me refiro a lugares estendidos, não a sala de exposições, mas a instituição ou a cidade. Sempre -em relação ao meu lugar de artista brasileira, mulher e professora universitária-, procuro trabalhar a partir de questões politicas e socioculturais. A princípio, me questiono o que naquela cultura, ou paisagem, ou espaço, diante do meu repertorio (espaço, paisagem, cultura) pode ser friccionado pela arte, dado a ver, ou problematizado. Tenho trabalhado com papel, fotografia, palavras, instalações com objetos ordinários, e, mais recentemente, com cerâmica, vídeo e áudio.

5. Artistas vivos ou obras que são uma referência para ti.

Mais que artistas, quero considerar trabalhos e creio que se trata mais de posicionamentos que de nomes. Começaria por Francis Alys, seguido, sem qualquer hierarquia, por Ai Wei Wei, Rirkrit Tiravanija, Doris Salcedo, Adrian Paci, Lida Abdul, Andrea Fraser... além de tantos muitíssimo menos conhecidos. Também os brasileiros Arthur Barrio, Cildo Meireles e Ana Maria Maiolino. Uma vez que minha atividade como professora universitária faz com que constantemente eu conheça novos e interessantíssimos artistas em atividade. Diria que esta lista é extremamente móvel, se renova constantemente.

6. Tendências que tens percebido ou acompanhado nas artes contemporâneas nos últimos 15 anos.

A tendência inevitável ao posicionamento político, com fisionomia abrangente. Nossos tempos não permitem outra abordagem, a meu ver.

7. O que é que tu colocarias no teu cabinet de curiosités?

O mar.

8. A experiencia como artista residente no CDAP.

Intensa e provocadora. Trouxe-me, mais uma vez, à tona a problematização das relações artista-instituição, essencial ao pensamento do estado da arte e sua história. Isto levanta a questão das condições do circuito e mercado da arte. Caso não houvesse um desejo de temática prévio, certamente esse seria um tema forte a ser trabalhado por mim em Lisboa. Diria que meu investimento, unido ao espírito colaborativo de poucas pessoas envolvidas direta e indiretamente ao CDAP, possibilitou ao projeto ser realizado no curto período de um mês em que pude estar em Lisboa.