Pedro Palma

Desde pequeno que queria ser artista, não sabia das resistências que iria passar ao longo da vida, por isso mesmo inconscientemente segui o meu sonho.

Sou licenciado em Pintura na Faculdade de Belas Artes em Lisboa. No terceiro ano, comecei a achar irreal trabalhar com cor e passei a procurar uma certa pureza formal. Nessa mesma altura estava no programa de mobilidade Erasmus onde frequentei do 2º Semestre do 3º Ano do Curso de Pintura na Facultad de Belles Arts de Sant Carles, Universidad Politecnica de Valência, em Espanha. O meu fascínio pelo vidro nasceu quando me apercebi que essa pureza formal quase se poderia tornar inexistente pelas propriedades do vidro. Decidi continuar os estudos no mestrado de Arte e Ciência do Vidro na Vicarte (Unidade de Investigação de Vidro e Cerâmica para as Artes, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Costa da Caparica). O meu trabalho nessa altura tornou-se naturalmente numa escala tridimensional. No inicio do segundo ano foi-me atribuída uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação Luso-Americana (Bolsa de Estudo de Especialização e Valorização Profissional em Artes no Estrangeiro) com a qual fiz um estágio na School for American Crafts, Rochester Institute of Technology (RIT), em Rochester, Nova Iorque. Nessa experiência aprofundei técnicas e desenvolvi alguns projectos, tendo criado uma inovadora técnica de trabalhar o vidro.

Atualmente, trabalho com suportes, ferramentas e técnicas não convencionais, estabelecendo reflexões simbólicas sobre questões relacionadas com a ideia de Tempo e Espaço. Um bom exemplo deste universo foi desenvolvido e aprofundado na residência artística no Carpe Diem Arte e Pesquisa. Desde 2008 que apresento o meu trabalho em exposições individuais e coletivas, eventos, concursos e instituições. Nunca tive um compromisso com os materiais, ou técnicas sinto-me confortavelmente empolgado na experimentação, seja com madeiras, metais, vidro, desenho, pintura, som, cinema, fotografia, performance, instalações. Creio que a Arte é um todo e não a simples soma das partes.

 

1. Pedro Miguel Rebelo de Palma

Pedro Miguel Rebelo da Palma.

2. O que vês quando olhas para a tua obra?

Quando olho para as minhas obras olho para mim projectado em algo físico, crio relações com os meus princípios e ideologias. Gosto de refletir e de idealizar enquanto visão do público, como será vista a minha obra, que códigos estou a utilizar e que mensagens estou a transmitir.

3. Que elementos não podem faltar numa exposição tua?

Numa exposição minha não pode faltar público. Creio que é a resposta e a confirmação de que a exposição (obra) tem todos os elementos necessários para viver enquanto exposição.

4. O teu processo artístico em poucas palavras.

Observação, reflexão e interpretação. Referências de luz, espaço e tempo.

5. Artistas vivos ou obras que são uma referência para ti.

Para mim existem muitos mais artistas vivos do que os artistas vivos. A imortalidade dos artistas é uma consequência da própria sociedade, perante as obras e os autores, uma afinidade e intemporalidade, ícones da arte. Creio que são referências sempre interessantes e actuais, tendo necessariamente que ter em conta como nos apropriamos dessas mesmas referências. Actualmente duas das minhas referências são A Fonte de Marcel Duchamp e os 4:33 de John Cage.

6. Tendências que tens percebido ou acompanhado nas artes contemporâneas nos últimos 15 anos.

Consumismo de tudo e todos! E de todos para todos! Sinto que a nível global cada vez existe uma maior saturação das sociedades perante os sistemas econômicos, políticos, educativos, não esquecendo a influência e manipulação dos meios de comunicação. Como consequência desta saturação e manipulação sinto que as pessoas estão cada vez mais cegas e surdas de si mesmas. No meio de tudo isto o consumo exaustivo e a banalização de imagens, cores, formas, objetos e sons acabam por criar uma crise nas artes, entre o artista, a obra e o público. Acredito que existe uma tendência de dualidade de sentimentos: desejo-fobia do vazio-cheio e do silêncio-ruído. Não sei quem deseja este sentimento, se o artista, se o artista perante a obra, o público perante a obra ou o público perante si mesmo.

7. O que é que tu colocarias no teu cabinet de curiosités?

Este gabinete de maravilhas estaria no campo, sem civilização em redor. Gostaria de ter um dos primeiros relógios de bolso, a lâmpada incandescente de Thomas Edison, alguns modelos das primeiras maquinas fotografias, um dos cadernos de apontamentos-pensamentos de Albert Einstein e Leonardo Da Vinci. A camisola de riscas azuis do Picasso.

8. A experiencia como artista residente no CDAP.

Aprendi muito, pelas partilhas e discussões entre artistas, curador e toda a equipa. O projecto artístico ao qual me propus desenvolver no palácio foi por si só um grande desafio porque os espaços no palácio tem uma presença bastante forte. A obra teve que se moldar ao palácio e não o espaço a obra.