Projecto Curatorial

O Carpe Diem Arte e Pesquisa é um projecto recente de produção cultural transversal de arte contemporânea, sediado no Palácio Pombal na rua de O Século, em Lisboa, e que visa propor novas direcções na praxis da curadoria e produção de cultura contemporânea. É um projecto sem fins lucrativos, com recursos financeiros reduzidos, vocacionado para a experimentação. Esta experimentação passa pela definição e execução das linhas curatoriais, que se alteram de acordo com o contexto existente, no sentido de depender: da proposta do artista, do financiamento desta e da sua adequação ao espaço.

O Palácio Pombal é um edifício do século XVII que foi a residência oficial do Marquês de Pombal. Este apresenta uma planta problemática atendendo ao facto de ter sido sujeito a inúmeras utilizações e inquilinos desde a sua construção até hoje. É de assinalar o seu valor simbólico, na encenação das aspirações políticas de um homem iluminado que tinha um projecto político e estético para a cidade e para o seu país, logo após o terramoto de 1755. 

O Palácio Pombal apresenta uma fachada ritmada e austera com a qual contrasta o seu interior extravagante e sumptuoso. As escadarias e os salões monumentais são acompanhados de uma vista para um jardim, igualmente cenográfico e barroco na sua essência. Infelizmente, as sucessivas utilizações ou ocupações, a par da sua consequente fragmentação, reduziram a sua área interior em aproximadamente dois terços. O espaço remanescente foi também, com o passar do tempo, alvo de intervenções de emergência ao nível da estrutura, deixando assim incompletos os trabalhos de embelezamento interiores. Daí a sensação, quando entramos no edifício, de sentirmos que algo não foi acabado, uma sensação de ruína.

 É nesta zona fragmentada, incompleta, em ruínas, em relação à planta original, que o Carpe Diem Arte e Pesquisa exerce a sua actividade curatorial desde 2009. Esta ocupação começou com a introdução de electricidade e água, imprescindíveis para poder ser habitado, e para posteriormente começar a trabalhar a adequação dos projectos dos artistas a um espaço adverso – e ao mesmo tempo fascinante pelos desafios que coloca.  

Os artistas, após serem convidados a desenvolver um processo de investigação que parte do Palácio, iniciam também um processo de negociação que vai para além da sua investigação pessoal, relacionada com as suas obras, e envolve uma realidade espacial e patrimonial particular. O Palácio, pela sua história e camadas sucessivas de materiais, apresenta desafios ao desenvolvimento e à instalação das obras de arte, nos seguintes aspectos: as paredes são instáveis, o chão desnivelado, as janelas empenadas, a relação com o interior exterior e a luz sazonal, o pé-direito acentuado de algumas salas até aos ângulos das paredes (que nunca são os 90º de um “white cube”), até à humidade nas zonas inferiores, (que interfere nos equipamentos eléctricos e nos materiais que constituem as obras de arte), passando pelas marcas deixadas pelas funções dos ocupantes do passado e pelas cicatrizes das campanhas de estabilização do palácio.

 Portanto, após o deslumbramento inicial, surge um momento de uma pequena crise, em que a curadoria, assente no diálogo entre o artista e a equipa, é essencial para levar adiante a execução da obra de arte proposta para o palácio.

O palácio tem, de facto, uma presença muito forte e assume uma importância vital na condução, desenvolvimento e consolidação do processo criativo. A negociação operada no curso dos projectos é diplomática e flexível, mas ao mesmo tempo exigente, pois o Palácio obriga a um questionamento sobre um modus operandi consciente ao nível da preservação do património ao mesmo tempo que se desenvolvem novas linguagens transversais na arte contemporânea.

 A riqueza destes processos de negociação tem gerado residências e consequentes obras de arte que nos alertam para os desafios permanentes aos quais somos sujeitos ao vivermos no século XXI e habitarmos um edifício do séc. XVII. Neste sentido o palácio é o “senior curator” e os curadores e os artistas residentes são os seus assistentes.

Lourenço Egreja, Dezembro de 2010 


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