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Nuno Sousa Vieira

O meu atual ateliê é nas instalações de uma antiga unidade fabril que iniciou a sua atividade nos anos 60. Esta fábrica de plásticos produzia sacos, baldes, bacias e todo um manancial de outros produtos de plástico. No início da década de 70, foi construído um novo bloco anexo ao já existente, para aí serem instalados os novos escritórios, respondendo ao crescimento económico e empresarial da estrutura. Alguns anos mais tarde, as instalações fabris foram aumentadas. Um novo hangar foi construído, mas sem os devidos procedimentos legais; o mesmo sucedeu com as sucessivas ampliações da estrutura inicial. A visão da estrutura empresarial como um todo perdeu-se, dando lugar a uma mera adição de partes, que procurava responder às necessidades do mercado, facto que conduziu também à alteração do produto comercializado durante a década de 80, passando a empresa a produzir PVC e TR (transformando resina num novo componente utilizado para a fabricação de solas de borracha e garrafas de plástico). Após sucessivas vendas, a empresa, no início dos anos 90, foi adquirida pelos atuais proprietários que passado algum tempo consideraram as instalações insatisfatórias. As fragilidades de uma construção desordenada e gradualmente degradada, conduziram ao fim daquela unidade fabril. Seguiu-se o seu progressivo desmantelamento e substituição por uma nova estrutura construída a cerca de 20 quilómetros e, nos finais do século XX, o encerramento definitivo desta unidade fabril. Em 2001, este espaço foi-me cedido para ateliê. Depois de ultrapassados os confrangimentos iniciais gerados pelo facto de ir trabalhar nos meus projetos, num espaço dotado de uma enorme carga afectiva, já que o meu pai foi, durante cerca de 35 anos, funcionário da empresa e eu próprio, durante as interrupções lectivas trabalhei naquele espaço, senti-me disponível para olhar para aquelas paredes e responder ao impulso de trabalhar, não só naquele local, mas com o próprio local. De espaço de trabalho, ele passou progressivamente a matéria de trabalho e, atualmente a material de trabalho. Percebi que está tudo lá e eu só tenho que encontrar e descobrir cada proposição plástica, para a poder mostrar. Os objetos que tenho vindo a desenvolver, têm uma morada, Plásticos SIMALA, S.A., Estrada dos Pousos, Pousos, 2410 Leiria e, é nesse local que a sua significação pode atingir-se em pleno. Os elementos que intervenciono são oriundos de uma estrutura industrial que é agora o meu ateliê e é nele que, a par com a presença dos seus semelhantes, cada um deles encontra a sua medida e o seu encaixe. Aquele espaço está condenado ao desaparecimento, pois o desenvolvimento urbanístico assim o vaticinou e existe da minha parte uma tentativa de salvar e de inscrever aquele lugar no meu mapa de desempenho artístico.

 

1. Nuno Sousa Vieira

(............., ................, ........, ..............., verdade).

2. O que vês quando olhas para a tua obra?

Agrada-me a ideia de ver, em potência, um mundo melhor.

3. Que elementos não podem faltar numa exposição tua?

O outro, a alteridade.

4. O teu processo artístico em poucas palavras.

Fazer, refazer e voltar a fazer; pensar, repensar e voltar a pensar nem sempre por esta ordem.

5. Artistas vivos ou obras que são uma referência para ti.

Frank Stella, William Anastasi, Tatiana Trouvé, Robert Morris. Para além dos quatro nomes gostaria de acrescentar duas obras: a obra Lampada annuale do Alighiero Boetti, de 1966 e a obra Enfoncement d'un rayon de Soleil da Gina Pane, de 1969.

6. Tendências que tens percebido ou acompanhado nas artes contemporâneas nos últimos 15 anos.

Não aprecio tendências, gosto de toda a arte com qualidade e preferencialmente sem nacionalidade nem gênero. Gosto de pensar na arte de uma forma livre e sem fronteiras.

7. O que é que tu colocarias no teu cabinet de curiosités?

Ferramentas de medição e de observação antigas.

8. A experiencia como artista residente no CDAP.

Foi importante. Permitiu-me testar uma série de procedimentos.